Vejo linhas errantes e obscuras.
Linhas retas e curvas movem-se em busca de uma forma.
Fecho os olhos para as ver melhor.
Lá estão elas… Uma, mais fina, fechou-se e formou uma circunferência.
Ali ao lado, dois segmentos de reta chamaram outro, e os três criaram um triângulo escaleno.
Um vasto grupo de linhas paralelas cruzou-se com outro semelhante e plantaram losangos no plano.
Fecho mais os olhos e surgem outras formas, que se vão combinando de modo harmonioso.
O quadrado espreita atrás do círculo e o retângulo vai-se entendendo com a elipse.
Depois vêm as sombras e as cores.
Tudo ganha profundidade e vida.
É tempo de abrir os olhos e de me sentar ao estirador.
Tenho muito que desenhar.
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
POEMAS - OO3 - LÁ EM CIMA...
Ela saiu para a noite morna, limpa e serena.
O céu, cravejado de estrelas brilhantes, convidava à contemplação.
Milhões de pontos de luz, talvez a iluminar e a aquecer milhões de mundos.
Imaginou lugares onde a vida acabava de nascer.
Formas simples, frágeis, ainda sem consciência do milagre que eram.
Noutros, a vida já se teria calado há muito, restando apenas o pó das memórias.
E nalguns poucos, pensou, haveria seres que olham o céu e perguntam:
Estaremos sozinhos neste cosmos imenso?
Com esse pensamento, sorriu, e voltou para dentro.
Lá em cima, na varanda de um outro mundo, eu olhava as mesmas estrelas.
Imaginava que alguém lá em cima partilhava as mesmas dúvidas e desejos.
Depois, recolhi-me também.
Peguei em papel e caneta e fui escrever.
quinta-feira, 21 de agosto de 2025
POEMAS - 002 - MEMÓRIAS DENSAS
Quando
te recordo,
não me lembro de ti.
Não te vejo.
O teu rosto esfuma-se
na neblina da memória.
Que bloqueio é este
que não me deixa matar saudades
numa imagem mental?
Talvez seja uma defesa da alma
que me incentiva a correr para ti.
E eu corro…
corro, corro como um louco…
Quem sabe?
Talvez te encontre.
quarta-feira, 20 de agosto de 2025
HISTÓRIA - 001 - POSSÍVEL SANTUÁRIO RUPESTRE
Situado na Quinta do Boco – Lagos da Beira, encontramos um penedo com uma escadaria de onze degraus. No final dos anos 80, Tarquínio Hall comunicou o achado ao diretor do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, Dr Mário Nunes. Deslocou-se então ao local a Dr.ª Ana Leite da Cunha (responsável por trabalhos realizados na anta do Pinheiro dos Abraços) que, após análise minuciosa, concluiu tratar-se de um santuário rupestre proto-histórico.
Quase defronte, à esquerda do caminho, encontra-se outra afloração granítica com quatro cavidades rigorosamente circulares em forma de malga. Numa delas só se notam os contornos. As outras três cerca de 37 cm de diâmetro por 18 cm de profundidade. Segundo a opinião do Dr. Mário Jorge Barroca, tratam-se de estruturas muito raras que se destinavam ao cumprimento de rituais funerários. Por comparação com outros estudos em estruturas semelhantes, também se pode avançar com a hipótese de aqui se realizarem rituais religiosos com sacrifícios de animais.
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| Escadaria para possível santuário rupestre |
A cerca de sessenta metros deste possível santuário situa-se outra elevada formação granítica com escadaria composta por cinco degraus. Ao cimo encontram-se duas perfurações, de cada lado do último degrau, com 8 cm de diâmetro. A largueza de horizontes sugere um posto de observação e os furos serviriam para fixar o suporte de uma cobertura.
Não há dados que nos digam a idade destas estruturas, mas podemos apontar para um período pré-romano. (mais de dois mil anos)
Tudo isto carece de estudos e tudo o que aqui se afirma não tem base cientifica sólida. Todas as achegas são bem-vindas enquanto não houver interesse, modos e meios para uma investigação.
Tarquínio Hall – Lagos da Beira – Subsídios para a sua História
www.monumentos.gov.pt
www.patrimoniocultural.gov.pt
CRÓNICAS - 001 - BALOUÇO VOADOR
Hoje é segunda-feira e, como é típico deste dia, não me apetece fazer nada. Lá fora, a neblina já se dissipou e adivinha-se um dia de primavera neste início de outono. Sim, há grandes semelhanças entre o outono e a primavera, embora o sentimento seja outro. É como o acordar e o adormecer, ou o nascer e o pôr do sol: fases de transição tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes. Claro que isso era mais no tempo em que as estações do ano estavam bem definidas.
No parque, uma menina baloiça sob o olhar atento da mãe. Talvez sonhe que está a voar. Se sonha, é porque é verdade. Na infância, os sonhos são mais reais do que a própria realidade. Eu também sonhei e ainda sonho, mas já não acredito nos sonhos. Já não acredito que, atrás daqueles arbustos, esteja uma mesa posta onde o Chapeleiro Louco e o Coelho Branco tomam chá. A menina acredita e é ela quem tem razão.
Abro a janela para melhor apreciar a cena bucólica e pueril. A menina continua a voar no seu baloiço de sonhos. Quem me dera voar em direção ao espaço, atravessar um buraco negro e desembocar noutro universo. Claro que tenho o meu universo, onde me posso refugiar. Todos temos o nosso universo privado. O meu é confuso, mas elegante: um somatório de formas, cores, sons, frases, poemas, pessoas que me fizeram bem ou mal, prazeres, desgostos, orgulhos, frustrações e sonhos. Já não são como os sonhos da menina voadora, mas são sonhos bons. Não tenho pesadelos, porque nada me atormenta.
O telefone toca. Não sei quem é, mas aposto que não é ninguém para me dar nada. Certinho: uma voz simpática tenta vender-me um seguro de vida. Se houvesse um seguro que realmente segurasse a vida, comprava já, mas isso seria contra as leis da natureza. Um dia, terei de devolver ao cosmos tudo o que recolhi, tudo o que fui.
Despachei a voz simpática sem ser grosseiro. Ela está a trabalhar. Não merece grosserias. Voltei à janela, mas a menina já não voava: afastava-se pela mão da mãe. Fazia birra, queria continuar a voar, a sonhar e a viver. O parque infantil ficou vazio…
Eu também.
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