sexta-feira, 18 de março de 2022

FÁBULAS - 01

O POLVO BARMAN

Era um polvo feliz porque fazia aquilo que mais gostava. Era barman ou barpolvo, como queiram. Trabalhar no Algas-bar era estar nas suas sete quintas ou nas suas sete ondas como se usa lá no mar. Por vezes tinha que aturar velhos tubarões armados em carapaus, mas com um pouco de tolerância, e paciência tudo se fazia. Paciência era mesmo o seu forte. Só a perdeu uma vez em que atendeu um cardume de sardinhas universitárias que tinham urgência numa rodada de shot’s. Para surpresa de muitos, levantou a voz e disse: Tenham calma, não veem que só tenho oito braços!?

terça-feira, 8 de março de 2022

CONTOS - 001 - NÃO HÁ TEMPO PARA PISTACHOS

É fácil cair, até porque há sempre mais quem nos queira deitar a baixo do que quem nos ajude a levantar. Pior ainda é quando alguém está a bater no fundo julgando que está na coroa da lua.

O despertador emitiu vários sinais sonoros até que a mão indolente de Júlia o desligou com o polegar enquanto o indicador ligava o rádio. Ficou assim com os olhos semicerrados a ouvir um locutor que falava de pandemias e guerras com aquela aquele voz empolgada e feliz com que eles costumam dar más notícias. – coisas sem importância – pensou Júlia enquanto saía da cama espreguiçando-se. Olhou-se ao espelho. Apesar de ter completado recentemente os vinte e oito anos ainda mantinha um ar juvenil que lhe permitia mentir sobre a sua idade. Era linda, mas uma máscara de cansaço toldava aquela rara beleza. – Ossos do oficio – Pensou. A profissão que escolheu exigia muito dela, tanto a nível físico como psicológico.
Dirigiu-se à janela e levantou a persiana. Estava um dia radiante de Verão. A praia, ali a dois passos, era um mar de gente. Um miúdo fazia birra por não lhe comprarem um gelado. No passeio desenhava-se a figura caricata de uma velha que se ajeitava-se numa cadeira exibindo um cartaz onde se podia ler: “Alugam-se quartos”. Júlia encostou a testa à janela. A frescura do vidro era agradável. Famílias inteiras dirigiam-se à praia carregando uma parafernália de objetos: chapéus, toalhas, cadeiras, brinquedos, etc. Mesmo por baixo da sua janela, uma senhora gorda vendia amendoins, tremoços, pistachos e outros aperitivos. Adorava pistachos. - Daqui a pouco vou lá comprar uma sacada. Talvez compre também uma cerveja no quiosque. - Pensou ela sorrindo.
No areal, por entre toda aquela agitação, vislumbrou uma menina que brincava sozinha misturando areia com os seus sonhos de criança. Por momentos recordou a sua infância. Foi uma criança feliz rodeada de carinhos. Depois começou a crescer e uma sucessão de nefastos ventos levaram-lhe os sonhos e a vontade de viver. Primeiro a morte prematura do pai, depois o padrasto que lhe batia. Mais tarde a mãe partiu também para a eternidade. Ficou sem ninguém que a defendesse daquele ser imundo que era o companheiro de sua mãe. Só tinha uma solução: meteu algumas peças de roupa num saco, guardou o dinheiro que encontrou e pôs-se a caminho de dedo esticado pedindo boleia. O seu destino era ir para longe. É sempre esse o destino de quem foge. Assim ficou só no mundo em plena adolescência. Chegou a passar fome e a dormir na rua. A tudo resistiu até que uma amiga lhe deitou a mão. Agora estava bem. O apartamento virado para o mar e o BMW na garagem davam-lhe a felicidade com que muitos sonham. O toque do telemóvel interrompeu-lhe estes pensamentos que já lhe desenhavam uma lágrima fortuita no rosto. Numero privado como de costume. Atendeu. Uma voz de homem rouca e arrastada fez-lhe diversas perguntas. Ela foi respondendo cautelosamente e terminou a chamada indicando a sua morada. Já não tenho tempo para comprar pistachos.
Tomou um banho, secou-se, vestiu um conjunto de lingerie provocante e sentou-se esperando calmamente.
O primeiro cliente do dia estava para chegar.