quinta-feira, 26 de outubro de 2023

MINICRÓNICAS – 004 – O MENINO DAS LÁGRIMAS

O quadro vinha embalado em papel de embrulho. A minha mãe cortou o cordão e atirou-me com ele. Ela sabia que eu gostava de brincar com cordões. Eram úteis para os meus navios piratas que cruzavam os oceanos do chão da sala. Também serviam para enforcar peluches. A minha mãe e a minha tia testaram as várias hipóteses para pendurarem o quadro até se decidirem pela parede ao lado do guarda-louça. A minha avó estava-se nas tintas para a pintura. Um prego, um martelo e pronto, quadro pendurado. Nele via-se um menino, talvez da minha idade, com ar triste e duas grossas lágrimas sulcavam-lhe o rosto. Não lhe achei graça nenhuma e fiquei piurso quando disseram que era parecido comigo. Chorar era para os putos. Eu já não chorava, já tinha sete anos, prestes a fazer oito.

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