Hoje é segunda-feira e, como é típico deste dia, não me apetece fazer nada. Lá fora, a neblina já se dissipou e adivinha-se um dia de primavera neste início de outono. Sim, há grandes semelhanças entre o outono e a primavera, embora o sentimento seja outro. É como o acordar e o adormecer, ou o nascer e o pôr do sol: fases de transição tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes. Claro que isso era mais no tempo em que as estações do ano estavam bem definidas.
No parque, uma menina baloiça sob o olhar atento da mãe. Talvez sonhe que está a voar. Se sonha, é porque é verdade. Na infância, os sonhos são mais reais do que a própria realidade. Eu também sonhei e ainda sonho, mas já não acredito nos sonhos. Já não acredito que, atrás daqueles arbustos, esteja uma mesa posta onde o Chapeleiro Louco e o Coelho Branco tomam chá. A menina acredita e é ela quem tem razão.
Abro a janela para melhor apreciar a cena bucólica e pueril. A menina continua a voar no seu baloiço de sonhos. Quem me dera voar em direção ao espaço, atravessar um buraco negro e desembocar noutro universo. Claro que tenho o meu universo, onde me posso refugiar. Todos temos o nosso universo privado. O meu é confuso, mas elegante: um somatório de formas, cores, sons, frases, poemas, pessoas que me fizeram bem ou mal, prazeres, desgostos, orgulhos, frustrações e sonhos. Já não são como os sonhos da menina voadora, mas são sonhos bons. Não tenho pesadelos, porque nada me atormenta.
O telefone toca. Não sei quem é, mas aposto que não é ninguém para me dar nada. Certinho: uma voz simpática tenta vender-me um seguro de vida. Se houvesse um seguro que realmente segurasse a vida, comprava já, mas isso seria contra as leis da natureza. Um dia, terei de devolver ao cosmos tudo o que recolhi, tudo o que fui.
Despachei a voz simpática sem ser grosseiro. Ela está a trabalhar. Não merece grosserias. Voltei à janela, mas a menina já não voava: afastava-se pela mão da mãe. Fazia birra, queria continuar a voar, a sonhar e a viver. O parque infantil ficou vazio…
Eu também.

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