quarta-feira, 20 de agosto de 2025

CRÓNICAS - 001 - BALOUÇO VOADOR

Hoje é segunda-feira e, como é típico deste dia, não me apetece fazer nada. Lá fora, a neblina já se dissipou e adivinha-se um dia de primavera neste início de outono. Sim, há grandes semelhanças entre o outono e a primavera, embora o sentimento seja outro. É como o acordar e o adormecer, ou o nascer e o pôr do sol: fases de transição tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes. Claro que isso era mais no tempo em que as estações do ano estavam bem definidas.

No parque, uma menina baloiça sob o olhar atento da mãe. Talvez sonhe que está a voar. Se sonha, é porque é verdade. Na infância, os sonhos são mais reais do que a própria realidade. Eu também sonhei e ainda sonho, mas já não acredito nos sonhos. Já não acredito que, atrás daqueles arbustos, esteja uma mesa posta onde o Chapeleiro Louco e o Coelho Branco tomam chá. A menina acredita e é ela quem tem razão.

Abro a janela para melhor apreciar a cena bucólica e pueril. A menina continua a voar no seu baloiço de sonhos. Quem me dera voar em direção ao espaço, atravessar um buraco negro e desembocar noutro universo. Claro que tenho o meu universo, onde me posso refugiar. Todos temos o nosso universo privado. O meu é confuso, mas elegante: um somatório de formas, cores, sons, frases, poemas, pessoas que me fizeram bem ou mal, prazeres, desgostos, orgulhos, frustrações e sonhos. Já não são como os sonhos da menina voadora, mas são sonhos bons. Não tenho pesadelos, porque nada me atormenta.

O telefone toca. Não sei quem é, mas aposto que não é ninguém para me dar nada. Certinho: uma voz simpática tenta vender-me um seguro de vida. Se houvesse um seguro que realmente segurasse a vida, comprava já, mas isso seria contra as leis da natureza. Um dia, terei de devolver ao cosmos tudo o que recolhi, tudo o que fui.

Despachei a voz simpática sem ser grosseiro. Ela está a trabalhar. Não merece grosserias. Voltei à janela, mas a menina já não voava: afastava-se pela mão da mãe. Fazia birra, queria continuar a voar, a sonhar e a viver. O parque infantil ficou vazio…

Eu também.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

POEMAS - 001 - PÔR DO SOL

Gosto do sol e gosto da cidade.

Gosto de ver o pôr do sol.

A cidade vai mudando de cor.

Primeiro os tons dourados,

depois vem o cinzento sombrio,

mas é por pouco tempo.


A cidade que desfalece, quase morre,

ilumina-se de repente.


Morre o dia e nasce a noite.

A noite é aquilo que deve ser.

Navios fantasma navegam de bar em bar.

Nascem amores, eclodem ciúmes.

Por ruas escuras escorre a solidão

amarga e cruel na letra de um fado.


Mais tarde ou mais cedo, a lua que reina,

rende-se à madrugada.

Primeiro os tons dourados,

depois vem o sol...

Gosto do sol e gosto da cidade...


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

MINICRÓNICAS – 007 – SOFÁ E MANTA

Lá se foi o tempo de uma mesa de esplanada, uma cerveja gelada e um livro. Em poucas semanas chegámos ao tempo de um sofá, uma manta e um livro. Os prazeres de verão dão lugar aos prazeres de inverno. Há quem prefira uns e há quem prefira outros. Por mim, prefiro o calor e os dias grandes, mas também aprecio a chuva que bate nas vidraças. Avizinha-se um dia perfeito. Estou de folga. A meteorologia anuncia uma tarde de chuva. O livro que encomendei deve chegar hoje. O sofá e a manta estão a postos. A chuva começa tintinar e o carteiro apitou. Trazia contas para pagar e publicidade. O livro não veio e não tenho nada para ler. Lá se foi a tarde perfeita. Recordei as lições proverbiais da minha avó: Nunca contes com o ovo no cu da galinha.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

MINICRÓNICAS – 006 – TEJO AZUL

Campo de Santa Clara, dia de feira da Ladra. Vou vagueando por entre as tendas, apreciando as antiguidades. Entro no jardim Botto Machado de onde sei que poderei tirar uma boa foto. Logo à entrada, sentada num muro, está uma jovem a desenhar. Os seus trabalhos são repletos de cor e de imaginação. Ela levanta a cabeça e sorri timidamente. Nos seus olhos corre o Tejo azul, sereno e sonhador. Perguntei preços.

- Isto é apenas um hobby, mas vendo por três euros… Será muito?

Escolhi um desenho e dei-lhe cinco Euros, declarando que não queria troco.

- Obrigado, mas não quero o seu prejuízo. Leve mais um.

Aceitei e despedi-me desejando o maior sucesso. Ia já perto da igreja de São Vicente de Fora quando me lembrei que podia ter pedido algum contacto à jovem artista. Não pedi, mas no meu pensamento corre o Tejo azul, sereno e sonhador.

MINICRÓNICAS – 005 – SEREI ESPANHOL?

Antigamente havia pessoas sábias, ou porque tinham elevada formação académica, ou porque liam muitos livros ou ainda porque viajavam muito. Claro que isso não estava ao alcance de todos. Era mesmo uma minoria que se podia dar ao luxo de ler, estudar e viajar. Hoje temos uma universidade grátis para todos e chama-se Facebook. Daqui saem dois tipos de doutores. Temos os que são especialistas em tudo, mas ao vivo não dizem pão. Fizeram mestrado de copia-e-cola da Wikipédia e outros sites. Depois temos os que não dizem pão no Face, mas que vão decorando frases feitas para dizerem com ares de quem sabe. O pior é que falta-lhes escola, falta-lhes chá. Localizam a Venezuela em África e dizem coisas do tipo: Três terços dos portugueses vivem na miséria. Estou tão longe de ser rico como estou da miséria, logo assaltou-me uma dúvida aterradora: Serei espanhol??