segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

POEMAS - 005 - LUA

A Lua e o Sol não se dão bem.
Raramente partilham o mesmo céu. 
O que os terá separado?
Esse é um grande mistério.

Outro mistério é o monstro que come a Lua.
Vai comendo, pouco a pouco, até deixar só uma frágil casca de luz.
Depois, para de comer.
Talvez esteja saciado ou talvez, por sabedoria, não queira acabar com ela.
Ela regenera-se, volta a ser grande, redonda, luzidia e o ciclo recomeça.

No céu há muitos mistérios, mas também muitos padrões.
Parece que tudo obedece a regras antigas e precisas.
Um dia, seremos capazes de compreender essas regras.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

POEMAS - 004 - INSPIRAÇÃO

Vejo linhas errantes e obscuras.
Linhas retas e curvas movem-se em busca de uma forma.
Fecho os olhos para as ver melhor.
Lá estão elas… Uma, mais fina, fechou-se e formou uma circunferência.
Ali ao lado, dois segmentos de reta chamaram outro, e os três criaram um triângulo escaleno.
Um vasto grupo de linhas paralelas cruzou-se com outro semelhante e plantaram losangos no plano.
Fecho mais os olhos e surgem outras formas, que se vão combinando de modo harmonioso.
O quadrado espreita atrás do círculo e o retângulo vai-se entendendo com a elipse.
Depois vêm as sombras e as cores.
Tudo ganha profundidade e vida.
É tempo de abrir os olhos e de me sentar ao estirador.
Tenho muito que desenhar.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

POEMAS - OO3 - LÁ EM CIMA...

Ela saiu para a noite morna, limpa e serena.

O céu, cravejado de estrelas brilhantes, convidava à contemplação.
Milhões de pontos de luz, talvez a iluminar e a aquecer milhões de mundos.

Imaginou lugares onde a vida acabava de nascer.

Formas simples, frágeis, ainda sem consciência do milagre que eram.
Noutros, a vida já se teria calado há muito, restando apenas o pó das memórias.
E nalguns poucos, pensou, haveria seres que olham o céu e perguntam:

Estaremos sozinhos neste cosmos imenso?

Com esse pensamento, sorriu, e voltou para dentro.
Lá em cima, na varanda de um outro mundo, eu olhava as mesmas estrelas.
Imaginava que alguém lá em cima partilhava as mesmas dúvidas e desejos.
Depois, recolhi-me também.

Peguei em papel e caneta e fui escrever.

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

POEMAS - 002 - MEMÓRIAS DENSAS

Quando te recordo,

não me lembro de ti.

Não te vejo.


O teu rosto esfuma-se

na neblina da memória.

Que bloqueio é este

que não me deixa matar saudades

numa imagem mental?


Talvez seja uma defesa da alma

que me incentiva a correr para ti.

E eu corro…

corro, corro como um louco…


Quem sabe?

Talvez te encontre.

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

HISTÓRIA - 001 - POSSÍVEL SANTUÁRIO RUPESTRE

Situado na Quinta do Boco – Lagos da Beira, encontramos um penedo com uma escadaria de onze degraus. No final dos anos 80, Tarquínio Hall comunicou o achado ao diretor do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro, Dr Mário Nunes. Deslocou-se então ao local a Dr.ª Ana Leite da Cunha (responsável por trabalhos realizados na anta do Pinheiro dos Abraços) que, após análise minuciosa, concluiu tratar-se de um santuário rupestre proto-histórico.

Quase defronte, à esquerda do caminho, encontra-se outra afloração granítica com quatro cavidades rigorosamente circulares em forma de malga. Numa delas só se notam os contornos. As outras três cerca de 37 cm de diâmetro por 18 cm de profundidade. Segundo a opinião do Dr. Mário Jorge Barroca, tratam-se de estruturas muito raras que se destinavam ao cumprimento de rituais funerários. Por comparação com outros estudos em estruturas semelhantes, também se pode avançar com a hipótese de aqui se realizarem rituais religiosos com sacrifícios de animais.
Escadaria para possível santuário rupestre
A cerca de sessenta metros deste possível santuário situa-se outra elevada formação granítica com escadaria composta por cinco degraus. Ao cimo encontram-se duas perfurações, de cada lado do último degrau, com 8 cm de diâmetro. A largueza de horizontes sugere um posto de observação e os furos serviriam para fixar o suporte de uma cobertura.

Não há dados que nos digam a idade destas estruturas, mas podemos apontar para um período pré-romano. (mais de dois mil anos)





Tudo isto carece de estudos e tudo o que aqui se afirma não tem base cientifica sólida. Todas as achegas são bem-vindas enquanto não houver interesse, modos e meios para uma investigação.

Tarquínio Hall – Lagos da Beira – Subsídios para a sua História

www.monumentos.gov.pt

www.patrimoniocultural.gov.pt

CRÓNICAS - 001 - BALOUÇO VOADOR

Hoje é segunda-feira e, como é típico deste dia, não me apetece fazer nada. Lá fora, a neblina já se dissipou e adivinha-se um dia de primavera neste início de outono. Sim, há grandes semelhanças entre o outono e a primavera, embora o sentimento seja outro. É como o acordar e o adormecer, ou o nascer e o pôr do sol: fases de transição tão semelhantes e, ao mesmo tempo, tão diferentes. Claro que isso era mais no tempo em que as estações do ano estavam bem definidas.

No parque, uma menina baloiça sob o olhar atento da mãe. Talvez sonhe que está a voar. Se sonha, é porque é verdade. Na infância, os sonhos são mais reais do que a própria realidade. Eu também sonhei e ainda sonho, mas já não acredito nos sonhos. Já não acredito que, atrás daqueles arbustos, esteja uma mesa posta onde o Chapeleiro Louco e o Coelho Branco tomam chá. A menina acredita e é ela quem tem razão.

Abro a janela para melhor apreciar a cena bucólica e pueril. A menina continua a voar no seu baloiço de sonhos. Quem me dera voar em direção ao espaço, atravessar um buraco negro e desembocar noutro universo. Claro que tenho o meu universo, onde me posso refugiar. Todos temos o nosso universo privado. O meu é confuso, mas elegante: um somatório de formas, cores, sons, frases, poemas, pessoas que me fizeram bem ou mal, prazeres, desgostos, orgulhos, frustrações e sonhos. Já não são como os sonhos da menina voadora, mas são sonhos bons. Não tenho pesadelos, porque nada me atormenta.

O telefone toca. Não sei quem é, mas aposto que não é ninguém para me dar nada. Certinho: uma voz simpática tenta vender-me um seguro de vida. Se houvesse um seguro que realmente segurasse a vida, comprava já, mas isso seria contra as leis da natureza. Um dia, terei de devolver ao cosmos tudo o que recolhi, tudo o que fui.

Despachei a voz simpática sem ser grosseiro. Ela está a trabalhar. Não merece grosserias. Voltei à janela, mas a menina já não voava: afastava-se pela mão da mãe. Fazia birra, queria continuar a voar, a sonhar e a viver. O parque infantil ficou vazio…

Eu também.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

POEMAS - 001 - PÔR DO SOL

Gosto do sol e gosto da cidade.

Gosto de ver o pôr do sol.

A cidade vai mudando de cor.

Primeiro os tons dourados,

depois vem o cinzento sombrio,

mas é por pouco tempo.


A cidade que desfalece, quase morre,

ilumina-se de repente.


Morre o dia e nasce a noite.

A noite é aquilo que deve ser.

Navios fantasma navegam de bar em bar.

Nascem amores, eclodem ciúmes.

Por ruas escuras escorre a solidão

amarga e cruel na letra de um fado.


Mais tarde ou mais cedo, a lua que reina,

rende-se à madrugada.

Primeiro os tons dourados,

depois vem o sol...

Gosto do sol e gosto da cidade...


segunda-feira, 30 de outubro de 2023

MINICRÓNICAS – 007 – SOFÁ E MANTA

Lá se foi o tempo de uma mesa de esplanada, uma cerveja gelada e um livro. Em poucas semanas chegámos ao tempo de um sofá, uma manta e um livro. Os prazeres de verão dão lugar aos prazeres de inverno. Há quem prefira uns e há quem prefira outros. Por mim, prefiro o calor e os dias grandes, mas também aprecio a chuva que bate nas vidraças. Avizinha-se um dia perfeito. Estou de folga. A meteorologia anuncia uma tarde de chuva. O livro que encomendei deve chegar hoje. O sofá e a manta estão a postos. A chuva começa tintinar e o carteiro apitou. Trazia contas para pagar e publicidade. O livro não veio e não tenho nada para ler. Lá se foi a tarde perfeita. Recordei as lições proverbiais da minha avó: Nunca contes com o ovo no cu da galinha.

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

MINICRÓNICAS – 006 – TEJO AZUL

Campo de Santa Clara, dia de feira da Ladra. Vou vagueando por entre as tendas, apreciando as antiguidades. Entro no jardim Botto Machado de onde sei que poderei tirar uma boa foto. Logo à entrada, sentada num muro, está uma jovem a desenhar. Os seus trabalhos são repletos de cor e de imaginação. Ela levanta a cabeça e sorri timidamente. Nos seus olhos corre o Tejo azul, sereno e sonhador. Perguntei preços.

- Isto é apenas um hobby, mas vendo por três euros… Será muito?

Escolhi um desenho e dei-lhe cinco Euros, declarando que não queria troco.

- Obrigado, mas não quero o seu prejuízo. Leve mais um.

Aceitei e despedi-me desejando o maior sucesso. Ia já perto da igreja de São Vicente de Fora quando me lembrei que podia ter pedido algum contacto à jovem artista. Não pedi, mas no meu pensamento corre o Tejo azul, sereno e sonhador.

MINICRÓNICAS – 005 – SEREI ESPANHOL?

Antigamente havia pessoas sábias, ou porque tinham elevada formação académica, ou porque liam muitos livros ou ainda porque viajavam muito. Claro que isso não estava ao alcance de todos. Era mesmo uma minoria que se podia dar ao luxo de ler, estudar e viajar. Hoje temos uma universidade grátis para todos e chama-se Facebook. Daqui saem dois tipos de doutores. Temos os que são especialistas em tudo, mas ao vivo não dizem pão. Fizeram mestrado de copia-e-cola da Wikipédia e outros sites. Depois temos os que não dizem pão no Face, mas que vão decorando frases feitas para dizerem com ares de quem sabe. O pior é que falta-lhes escola, falta-lhes chá. Localizam a Venezuela em África e dizem coisas do tipo: Três terços dos portugueses vivem na miséria. Estou tão longe de ser rico como estou da miséria, logo assaltou-me uma dúvida aterradora: Serei espanhol??

MINICRÓNICAS – 004 – O MENINO DAS LÁGRIMAS

O quadro vinha embalado em papel de embrulho. A minha mãe cortou o cordão e atirou-me com ele. Ela sabia que eu gostava de brincar com cordões. Eram úteis para os meus navios piratas que cruzavam os oceanos do chão da sala. Também serviam para enforcar peluches. A minha mãe e a minha tia testaram as várias hipóteses para pendurarem o quadro até se decidirem pela parede ao lado do guarda-louça. A minha avó estava-se nas tintas para a pintura. Um prego, um martelo e pronto, quadro pendurado. Nele via-se um menino, talvez da minha idade, com ar triste e duas grossas lágrimas sulcavam-lhe o rosto. Não lhe achei graça nenhuma e fiquei piurso quando disseram que era parecido comigo. Chorar era para os putos. Eu já não chorava, já tinha sete anos, prestes a fazer oito.

MINICRÓNICAS – 003 – PRIMEIRAS CHUVAS

O meu avô escancarou a janela da cozinha e exclamou: Olha o que chove! Apresentou-nos a chuva como se fosse obra dele. Não me admirava nada. Quem sabia histórias como a Torre da Babilónia, bem podia criar a chuva. É ouro a cair do céu, dizia a minha avó com aquele costume de chamar outra coisa às coisas. O ouro tem outra cor e faz outro barulho. Pensava eu olhando a lareira onde crepitava uma bela fogueira. Temos lenha na loja, as batatas estão no trabinaco e o vinho está nos pipos. Pode chover à vontade. Pois é, mas lá tinha eu que adiar os planos de uma cabana no bosque. O meu avô foi buscar um saco de castanhas e um assador de barro. Vou assar castanhas, anunciou ele como se não fosse óbvio. Boa ideia. Sim, o meu avô podia não ser o criador da chuva, mas era ele que tinha as melhores ideias.

MINICRÓNICAS – 002 – ESCRITA

Até à invenção da escrita, o conhecimento era transmitido oralmente de geração em geração. Quem conta um conto acrescenta-lhe um ponto. A história do rapaz que mata uma lagartixa com uma faca chegava facilmente aos seus netos como o intrépido herói que matou um dragão com a sua lança. Havia terreno fértil para o nascimento de deuses e demónios. A escrita veio permitir que o conhecimento atingisse mais gente e ultrapassasse gerações mantendo um certo rigor. Era possível acumular conhecimento em livros e criar bases para que outros fossem mais além na descoberta do mundo. Citando Carl Sagan: “A escrita é a maior invenção humana, capaz de unir pessoas de épocas distantes que nunca se conheceram. Os livros quebram a barreira do tempo e são a prova de que os humanos podem fazer magia”.

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

CONTOS - 006 - O SINO

O SINO

Ainda não eram oito da manhã quando Aníbal Sacristão se dirigiu à igreja. Eram horas do primeiro toque no sino a anunciar a missa que seria por volta das nove. Uma missa especial por ser a primeira daquele ano de 1947. Subiu a escada estonteante por ser em espiral. Chegou ao cimo cansado e tonto. Já lhe começavam a faltar as pernas para aquilo. Em breve, o Senhor Prior teria que arranjar outro. O que mais havia era malta nova com vontade de ser sacristão. Puxou a corda do sino e ouviu um som estranho. Algo que não tinha nada de parecido com o som vibrante que era invejado pelas aldeias vizinhas.

- Parece uma cana rachada! Que diabo se passa com o sino!?

Aproximou-se e viu de onde vinha o defeito. O sino estava rachado de alto a baixo. Depressa adivinhou a origem do estrago.

- Valdevinos. Partiram o sino a festejar o ano novo. Grandes pedaços de asno...

Tudo tinha começado na véspera. Jaime, Júlio e João tinham o apelido de “três jotas”. Isto derivava das iniciais dos seus nomes e do facto de andarem sempre juntos. Eram da mesma idade. Foram às sortes no mesmo dia e só mesmo a tropa os separou durante longos e penosos meses. Anos mais tarde, a cultura pop conheceria outros três jotas. Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix tinham em comum a primeira letra do nome, a genialidade e o facto de uma vida desregrada os ter levado a todos aos vinte e sete anos, mas isso é outra história.

Naquele dia, trinta e um de Dezembro, os três jotas, resolveram fazer uma patuscada na adega do João. Aí aguardaram pela meia-noite bebendo uns copos e comendo do que havia. Brindaram à chegada do novo ano e encaminharam-se para a Igreja Matriz. Havia tradições a cumprir. Subiram à torre. João pegou no badalo e Júlio serviu-se do martelo que bate as horas. Jaime ficou desarmado. O sino começou a vibrar furiosamente espantando o ano velho e dando as boas vindas a 1947. Jaime queria participar na festa, mas quem despegava aqueles dois? Foi então que se lembrou da marreta que tinha na loja. A casa era dois passos dali.

- Eu já venho. Esperem por mim.

Não esperaram muito. Ele chegou armado de pesada marreta e entrou na festa com todo o entusiasmo. Um badalo, um martelo e uma marreta eram demais para o velho sino. Um som agudo anunciou o fim da resistência. O povo, adormecido mesmo com o som estridente do seu sino, não deu conta daquela última badalada. Os três jotas deram e ficaram apavorados. O caso não era para menos. Tinham dado cabo de algo que era do povo. Era grande a importância do sino na vida da aldeia. Era ele que dava as horas. Era ele que anunciava a missa e todas as cerimónias religiosas. Vibrava com alegria em dias festivos, mas também batia pausadamente quando anunciava um falecimento. Dizia o povo que até tinha o misterioso dom de adivinhar a morte quando o som era remansado. Soava a alarme quando era tocado a rebate. Normalmente anunciava o fogo em alguma mata ou quando este consumia alguma casa deixando rastos de devastação e miséria. O sino era como o coração do povo e agora estava partido. Os três rapazes tinham razão para estar assustados.

- É pá. Partimos o sino! E agora.

- Agora cavamos daqui para fora e ninguém se descose.

Desceram a escada e desapareceram na bruma da noite, cada um para sua casa.

Agora era o Aníbal Sacristão a contemplar o vândalo ato.

- Valdevinos. Pedaços de asno. Quem seriam os galegos que fizeram este lindo serviço.

Foi ao padre que coube a missão de anunciar na sagrada Eucaristia o triste acontecimento. Apelou mesmo a todas as forças do céu e do inferno para que pesado castigo caísse sobre o bando de facínoras destruidores do bem do povo. Júlio, Jaime e João ouviam tudo em silêncio. No silêncio do seu segredo. O povo estava indignado e à saída da missa não se falava de outra coisa. Foi aí que o Júlio teve uma brilhante ideia que o salvaria da ira do povo e de todas as entidades do além convocadas pelo padre.

- A malta junta-se e damos uma volta ao povo. Com um peditório arranjamos dinheiro para um sino novo e ainda melhor que este.

Jaime e João juntaram-se a ele.

- Começamos ainda hoje a organizar isso.

O padre, ouviu a conversa e abençoou aqueles três rapazes.

- Deus vos ajude a fazer o bem. É com rapazes assim que a nossa paróquia pode contar.

Dona Filomena, beata dos sete costados ou mais, chorava comovida.

- Até eu, mesmo pobre, Ainda tenho dez tostões para ajuda.

Os três rapazes passaram a percorrer a aldeia a bater de porta em porta e nenhuma se fechou.

- Uma ajudinha para o sino.

- Sim senhor. Andam vocês a compor o que os bandidos estragaram. Eles é que haviam de pagar.

- Vá-se lá agora saber quem foi.

- Tomem lá. É pouco, mas é de boa vontade.

- Deus o ajude.

Ao fim do dia tinham dinheiro que chegava para o sino e ainda sobrou para uma travessa de carapau frito com molho de escabeche regada com vinho tinto na tasca do Vicente. O povo nunca esqueceu o ato daqueles bons rapazes que ocuparam o dia feriado a trabalhar para o bem da aldeia. Até os heróis têm os seus segredos.

quarta-feira, 13 de julho de 2022

CONTOS - 005 - A RAZÃO DE EU GOSTAR DE MULHERES VESTIDAS DE BRANCO

Já há algum tempo que me andavam a ameaçar. Era só um ligeiro descarrilamento comportamental para vir logo o susto: deixa-te ir para a escola que vais ver. Depois vinha logo a história do terrível professor que batia nas mãos dos alunos com uma régua de madeira. Podia lá ser? Um par de estalos bem assentes com esmero e dedicação já me tinha acontecido, mas levar com uma tábua nas mãos não era coisa que os meus seis anos imaginassem. Finalmente chegou o dia. Tiraram-me da cama mais cedo. Um banho, orelhas bem lavadas, um pequeno almoço, e uma bata azul com as minhas iniciais bordadas no bolso. Deram-me uma pasta com uma lousa, um giz, um caderno com a imagem de um jovem da mocidade portuguesa e um lápis. Lá vou a caminho da escola assumindo ares de pessoa importante quando passava por alguém. Afinal já não era nenhuma criança. Até já andava na escola. A cena das reguadas é que assustava, mas se os outros as levavam e sobreviviam, eu não seria diferente. Entrei na sala de aula. Lá estavam os outros miúdos da aldeia também com cara de caso. As miúdas ficavam na outra sala e tinham outro espaço para brincar separado por arame farpado. O professor entrou de rompante. Levantaram-se todos e eu fiz o mesmo. Ouviu-se um coro que não tive tempo de acompanhar.
- Bom dia senhor professor.
O visado respondeu.
- Bom dia meninos.
Os meninos da segunda, terceira e quarta classe rezaram o pai-nosso e cantaram o Hino Nacional. Eu e os outros da primeira classe ficámos a conhecer aquele que seria um ritual diário. Agora, a bem com Deus e com a Pátria, era tempo de começar a aula. O professor, careca de óculos grossos, não era assim tão ameaçador. Tinha mais medo daqueles senhores dos retratos que guardavam o quadro negro. Imaginava que fossem eles que a qualquer momento entrassem na sala de régua em punho. Aquele velho de ar sinistro e o outro vestido de militar e bigode farfalhudo não me inspiravam confiança. Tranquilizava-me mais a imagem de Cristo ao meio dos fulanos, mas de mãos e pés pregados também não seria grande defesa. Só mais tarde vim a saber que se tratava do Dr. António de Oliveira Salazar, Presidente do Conselho de Ministros e do Marechal António Óscar de Fragoso Carmona, Presidente da Republica. Também vim a saber que, em 1972, já deviam ter sido substituídos pelo Dr. Marcelo José das Neves Alves Caetano e pelo Almirante Américo Deus Rodrigues Thomaz respetivamente, mas a podridão do regime já não dava para mais. Também só em abril de 1974 fiquei a saber que tinha boas razões para temer esses filhos da puta todos, apesar das mães não terem culpa.
Afinal o professor, careca de óculos, era mais ameaçador do que parecia. Abriu a gaveta e tirou uma tábua em mogno. Mostrou-a a nós que eramos novos alunos.
- Quem não se porta bem e quem não estuda leva com isto nas mãozinhas.
Afinal a régua existia mesmo! Não era só ameaça. Felizmente era só para quem se portava mal e para quem não estudava. Eu não tinha nada a recear. O professor escreveu as letras a, e, i, o, u no quadro negro e mandou copiar. Aquilo saiu-me tão mal, tão gatafunho que achei melhor arrancar a folha ao caderno e começar de novo. Amarfanhei o papel, levantei-me e fui pôr no caixote do lixo. Voltava para trás quando o professor me chamou.
- Menino, venha cá.
- Sim senhor professor.
- Como se chama?
- Paulo.
Horror dos horrores. O professor abriu a gaveta e tirou a pesada régua.
- Estenda a mão.
Assim fiz. Fechei os olhos, mas vi mentalmente a ferramenta de tortura elevar-se e cair com velocidade na minha pequena mão. Uma dor intensa. Mais intensa ficou com os risos de escárnio dos meus colegas.
- É para aprender que nunca mais se pode levantar sem me pedir licença.
Afinal havia muita coisa a saber sobre o conceito de “portar-se bem”. Chegou a hora do recreio e a dor da mão e da alma ficou esquecida. Mesmo em dez minutos ainda dava para encher um saco de papeis e jogar uma futebolada. Eu não joguei. Ninguém me escolheu para fazer parte da equipa. Fui ver o que se passava para além do arame farpado. As meninas, também em intervalo, saltavam á corda e jogavam ao lenço. De batas brancas pareciam pombinhas a saltitar. Deitei-me e rastejei por baixo do arame farpado. Ainda fiquei preso, mas passei. Queria brincar com as pombinhas brancas, mas não tive sorte. Logo soou o alarme. Um colega, talvez invejoso, gritou bem alto.
- O Vítor Paulo anda no recreio das meninas!
No regresso à sala de aula tive direito a um corretivo moralista e a uma segunda dose de régua. Doloroso saldo para o primeiro dia de aulas, mas acredito que foi nesse dia que fiquei a gostar de mulheres vestidas de branco

CONTOS - 004 - O AFOGADO

“Há mar e mar, há ir e voltar.” Também há ir e não voltar e nem
sempre é pior por isso.

Uma chuva miudinha atrapalhava as férias de Verão. O mar encrespado obrigava a que se colocasse a bandeira vermelha nos mastros da praia. Os veraneantes andavam desolados pelas ruas da cidade naquelas figuras burlescas: calções, chinelas e guarda-chuva. À tarde, o tempo mostrou que afinal estávamos em Agosto. O sol rompeu a camada de nuvens, a temperatura subiu e os banhistas invadiram a praia. Só o mar é que continuava revolto proibindo o banho refrescante.
Pedro estava no seu posto mais atento que o costume. Era nadador salvador há dez anos e sabia, por experiência, que era nestes dias que os acidentes mais aconteciam. Havia sempre um esperto que desafiava a as forças da natureza. Apesar da sua atenção algo lhe escapou. Foram só uns poucos segundos enquanto observava a velha traineira “Florbela” que se aventurava naquele mar em reboliço. Quando voltou a vigiar os banhistas viu um indivíduo que nadava de encontro às enormes ondas tocadas pelo vento noroeste. Correu para a beira-mar soprando no apito a plenos pulmões. Ele parecia não ouvir. Parecia mais um louco, um suicida de que alguém no seu juízo normal. Foi buscar a bóia de salvamento. Em menos de um minuto já só via os braços do desgraçado a debaterem-se contra a fúria do mar. atirou-se à água. Em braçadas vigorosas dirigiu-se ao homem em apuros. A sequência de altas ondas e as fortes correntes desafiavam os seus limites. Depressa compreendeu que apenas lhe restavam forças para regressar à praia. Ainda assim mergulhou para ver se via a vitima. As areias em reboliço embotavam-lhe a visão. Tentou voltar a terra firme, mas uma vaga mais forte deixou-o inconsciente. Ainda sentiu uma mão que lhe segurava o pulso antes de desfalecer.
Quando abriu os olhos viu dezenas de rostos bronzeados que o olhavam com curiosidade. De joelhos na areia estava o seu velho amigo Diogo. O homem que lhe ensinara a lidar com o mar. sorria para ele com os dentes podres. Quarenta anos de tabaco deixam as suas marcas.
- Então pá!? Ensinei-te a salvar pessoas e não a morrer afogado.
- Mas não salvei ninguém. Pois não? O homem? Conseguiste tu?
Diogo fez uma cara de profunda tristeza.
- Não. Não consegui eu, nem ninguém conseguiria com um mar assim.
- Recuperaram o corpo?
- Ainda não. Já alertei as autoridades. Vão começar as buscas.
Pouco depois a praia, normalmente sossegada, estava invadida por policias, bombeiros, botes da marinha e até um helicóptero que sobrevoava as águas. O tenente da P.S.P comandava as operações seguido de perto pelo comandante dos bombeiros.
- Mas ninguém conhece o homem? Não tem família? Estava sozinho na praia?
O comandante dos bombeiros encolheu os ombros, mas um cabo ofegante apareceu com respostas prontas.
- Chefe. Já temos dados completos sobre o afogado.
- Como conseguiste?
- Foi o companheiro de cela que veio ter comigo. O homem está em choque.
- Companheiro de cela!?
- Sim. São dois reclusos que tiveram direito ao fim de semana por bom comportamento. Já telefonei para a penitenciária a confirmar.
- E então? Que dizem eles?
- Joaquim Lourenço. Cumpre pena de doze anos por tráfico de droga. Não tem família e ainda lhe faltam dez anos.
- Não me parece. Acho que já pagou por todos os crimes da pior maneira. Já que não há pena de morte, a natureza encarregou-se de aplicar a sua justiça.
As buscas continuaram durante três dias, mas nem sinais do corpo. É possível que alguma forte corrente o tenha levado para longe. Poderá ainda dar á costa naquela praia ou em outro ponto qualquer. Dizem os pescadores que o mar devolve tudo aquilo que não lhe pertence. Certo é que Joaquim Lourenço pagou com a vida por desafiar o mar.
Joaquim Lourenço estava sentado na esplanada olhando as águas límpidas do Oceano Pacifico. Sorria e tinha bons motivos para sorrir ao pensar como fora fácil passar de uma cela para aquele paraíso. Primeiro foi preciso “comprar” o mestre João Baptista, comandante da traineira “Florbela”. O homem mostrou-se reticente até lhe falar num milhão de euros. Depois foi aquele mergulho no mar bravio. Para um nadador como ele foi relativamente fácil chegar à traineira sem ser notado enquanto aquele nadador salvador lutava pela vida dele e pela própria. A velha mas sólida traineira levou-o até ao luxuoso iate do seu patrão e amigo: o colombiano Hortênsio Fernandez, barão da droga. Era ás custas dele que estava instalado naquela bela ilha enquanto lhe tratavam de toda a documentação para adquirir uma nova identidade. Um dia ainda haveria de passar férias naquela praia portuguesa que o viu “morrer”. A ideia arrancou-lhe uma ruidosa gargalhada enquanto levantava os olhos para melhor ver a bela Haitiana que se aproximava com duas bebidas e um sorriso.

CONTOS - 003 - RESIDENCIAL CRONOS

A pensão Cronos não figurava nos sites das agências on-line onde se podia reservar um quarto. Não figurava em anúncios de jornal, em folhetos turísticos nem mesmo nas velhas páginas amarelas. Ficava situada numa ruela de Alfama e quase não se dava por ela se não fosse uma placa metálica ferrugenta. Bati à porta e não tardou que ela rangesse antes de se abrir e deixar ver uma bela rapariga de negros cabelos aos caracóis.
- Bom dia.
- Bom dia senhor.
- Tem algum quarto vago?
- Claro que sim. Entre.
Levou-me por um corredor comprido. Do lado de fora, ninguém imaginaria o imenso espaço que há interior do edifício.
- Quem lhe recomendou a nossa pensão?
- Um fulano que estava lá fora a desenhar na rua.
- Sei quem é. É um tal Vítor que vive lá para a Beira Alta, mas de vez em quando vem para aí pintar a capital. Aqui está o seu quarto.
Era um quarto espaçoso, mas acolhedor. Curiosamente estava decorado com relógios antigos. Eram mais de vinte, na cómoda, nas mesinhas de cabeceira, por cima do roupeiro e nas paredes. Felizmente estavam parados, senão seria uma cacofonia de tiquetaques que não deixaria dormir ninguém. Estava cansado e resolvi dormir um sono. Deitei-me. A cama queixou-se um bocadinho, mas logo estabilizou. Apaguei a luz e fechei os olhos. O sono começava a tomar conta dos meus sentidos quando algo os despertou. Todos aqueles relógios, mais de vinte, começaram a trabalhar ruidosamente. Chegou a meia-noite e as doze badaladas soaram em todos eles. Antes da décima segunda pancada senti-me como que a flutuar e apenas via umas luzes coloridas a rodopiar à minha volta. Tentei gritar, mas não consegui. De repente acordei daquilo que julgava ser um pesadelo. Estava deitado no chão, mas no meio da rua. Levantei-me e ouvi uma senhora dizer para outra: Um bêbado a dormir na rua! Ao que isto chegou. Pelas roupas e pelos penteados, pareciam ter saído as duas de um filme daqueles em que entrava o Vasco Santana e a Beatriz Costa. Quando olho à volta fico aterrorizado e fascinado ao mesmo tempo. Os automóveis eram dos anos trinta e toda a gente se vestia à moda dessa época. Era certo que estava em Lisboa. Ali estava o rio Tejo e o Cais da Rocha, mas olhei para a ponte e não havia ponte. Nem sequer o Cristo Rei abria os braços do outro lado do rio. Teria viajado no tempo? Como nos filmes apareceu logo um jovem ardina a apregoar o jornal “O Diário de Lisboa”.
- Ó miúdo. Mostra-me o jornal.
- Não quer comprar?
- Quanto custa?
- São três tostões.
Meti a mão ao bolso e encontrei um Euro.
- Toma lá esta moeda…
O miúdo olhou para ela e para mim com ar desconfiado.
- É estrangeira?
- É… mais ou menos, mas guarda bem porque vale tanto como mais de seiscentos jornais.
- Fico com ela. Tome lá o jornal.
O miúdo seguiu o seu caminho e eu olhei para o cabeçalho do jornal confirmando o que estava à vista. O jornal tinha a data de 19 de Julho de 1936 e no seu titulo principal podia ler-se:

O MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO EM ESPANHA
O GENERAL FRANCO INTIMA MARTINEZ BARRIO A ENTREGAR O PODER
AS PRIMEIRAS TROPAS REVOLTOSAS DESEMBARCARAM ESTA MANHÃ EM CÁDIZ

Não havia dúvidas. Tinha viajado no tempo até 1936. A guerra civil espanhola estava em marcha. A seguir viria a segunda guerra mundial. Os próximos nove anos seriam sangrentos. Pela primeira vez fui assaltado por uma terrível ideia: E se não voltasse à minha época? Uma voz celestial cortou-me o pensamento. Junto ao cais, num quiosque de vinhos, alguém cantava. Aproximei-me. Além dos vinhos, havia bordados, fruta e souvenirs. Atrás do balcão, uma jovem adolescente de olhar luminoso cantava de forma luminosa. Calou-se para me atender.
- Diga senhor.
O seu sorriso era tão luminoso como o seu olhar, aliás toda ela irradiava luz.
- Na verdade, não quero nada. Só queria continuar a ouvir a sua bela voz.
- Obrigado. Adoro cantar.
Outra jovem, um pouco mais nova, aproximou-se.
- Esta minha irmã está sempre a cantar. Eu também gosto, mas ela é demais.
- A menina já pensou numa carreira de cantora.
O sorriso dela acendeu-se com mais intensidade.
- Adorava ser artista. Já participei como solista na marcha de Alcântara. Foi no ano passado. Não viu?
- Não estava cá.
Comecei a perceber o que se passava ali. Uma estrela estava para nascer. Formulei uma pergunta que só me iria confirmar o que já sabia.
- Posso saber o seu nome?
- Sou Amália e esta é a minha irmã Celeste.
- Amália?
- Sim, Amália Rodrigues – disse ela sorrindo e iluminando todo o Cais da Rocha do Conde de Óbidos.
De repente, a sua imagem começou a ficar turva. Tudo à minha volta começou a redopiar. Senti-me desmaiar. Fiz um esforço hercúleo para abrir os olhos. Quando finalmente consegui, estava de novo deitado na cama do quarto dos relógios. À minha frente estava a rececionista da Pensão Cronos com ar preocupado.
- Desculpe entrar no seu quarto, mas ouvi-o gritar. Sente-se bem?
- Sim, agora sim. Tive um sonho estranho...
- Devia ser um pesadelo. Não quer um cházinho? Temos um pequeno bar.
- Aceito sim.
Segui atrás dela por um extenso corredor. Olhei de relance para um quadro, mas tive que voltar a olhar. Não era nenhuma pintura. Era a capa do Diário de Lisboa 19 de Julho de 1936. No local do preço estava uma moeda de um Euro. A rapariga voltou atrás para me esclarecer na medida do possível.
- Isso era do meu avô falecido. Ele dizia que era uma recordação dos seus tempos de meninice em que era obrigado a trabalhar como ardina. O que me intriga é a moeda. Sempre há cada mistério.
- Pois há... Já agora, sabia que Cronos era o Deus do tempo na antiga Grécia?

CONTOS - 002 - A VIÚVA DO PESCADOR

Saber esperar é uma grande virtude. A esperança é uma das pedras Basilares da vida. Esta é uma história triste, mas ainda assim, é preciso não perder a esperança.

Era uma bela mulher, mas não era tanto a sua beleza que despertava a atenção de Jaime. Era sim a aura de mistério que a rodeava. Os seus longos cabelos negros esvoaçavam ao vento acompanhando os movimentos de um simples vestido comprido da mesma cor. Negro não é cor de Verão, por isso distinguia-se por entre a multidão que caminhava junto à praia. – Uma andorinha no meio de pombas brancas. – Pensava Jaime. Ali estava ela todos os dias sentada num rochedo olhando o mar. Apenas olhando o mar. Nada mais à sua volta interessava. Seria assim tão obcecada pela natural beleza do imenso oceano? Camões chamava às águas do Tejo as suas musas de inspiração, as suas “tágides”. Será que o mar inspirava aquela mulher para alguma criação artística? Um fulano de meia idade, calvo e de olhar sonhador, costumava andar por ali com caneta e bloco a desenhar tudo o que via, mas não era credível que aquela mulher evocasse qualquer ninfa. Tudo isto eram interrogações que anuviavam o cérebro de Jaime. Costumava sentar-se à sombra de uma frondosa árvore naquela hora pachorrenta de maior calor. Lá estava ela no rochedo em frente. Algumas vezes tentou chamar-lhe à atenção sem qualquer resultado. Um dia resolveu pedir informações a um velho homem do mar que também aproveitava a sombra da árvore.
- Aquela rapariga é de cá?
O homem de rosto crispado pelo ar marítimo puxou uma fumaça do cigarro e olhou Jaime com curiosidade.
- Qual rapariga?
- Aquela ali sentada. A do vestido preto.
- A Joanita? É de cá sim.
Uma onda de tristeza inundou o rosto do velho pescador. Abanou a cabeça murmurando.
- Pobre menina... coitadinha da nossa menina.
- Porque fala assim!?
- É uma história triste, a história da nossa menina.
- Está a deixar-me curioso.
- Olhe para ela. Que é que acha dela?
- Para começar é muito linda, mas um pouco triste e solitária. Não tem amigos, nem amigas!? Um namorado!?
- Teve isso tudo. Fui colega do pai dela na pesca. Era um valente marinheiro. Muitas vezes estivemos perto da morte, mas nunca vi medo naquele homem. Conheço a Joanita desde o berço. Cresceu e transformou-se na mais bela rapariga que esta terra já viu. Herdou a fibra do pai. Chegou a ir com nós para o mar. Foi assim que namorou e casou com o Rodrigo: um valente rapaz. Só se sentia bem no mar. Há coisa de três anos, o Rodrigo embarcou no arrastão “São Tiago”. Uma tempestade medonha afundou-o. Os corpos, dele e dos restantes tripulantes, nunca foram encontrados.
Lágrimas de dor sulcavam o rosto do homem.
- Se não quer recordar coisas tristes deixe lá senhor.
- Eram todos meus amigos. Compreende? Agora quero contar o resto. A Joanita não aceitou a perda do marido. Não aceitou nessa altura nem nunca. Que é que acha que ela está ali a fazer todos os dias?
Jaime olhou para ela. Passou as mãos pelo rosto e com olhar incrédulo perguntou.
- Não me diga que é o que eu estou a pensar!
- É sim meu jovem. A Joanita passa os dias ali sentada à espera que o “São Tiago” surja no horizonte com o seu Rodrigo.
- É incrível! Não há ninguém que a faça desistir dessa espera inútil!?
- Já muitos tentaram falar com ela, mas não vale a pena. No fundo até é melhor assim.
- Melhor assim como!?
- É a esperança que mantém a nossa menina viva. Mesmo sendo uma esperança falsa é sempre uma esperança.
- Acho que é mais um estado de loucura.
- Alguém consegue dizer o que é a loucura? Acredite nisto: diz o povo que “enquanto há vida há esperança”. É uma grande verdade, mas também só há vida enquanto houver esperança. Ou, se quiser chame-lhe fé.
Meses mais tarde Joana desapareceu sem deixar rasto. As autoridades procuraram por todo o lado acabando por desistir. Falou-se em suicídio, rapto ou qualquer horrível acidente. Entre os pescadores há coisas que se contam. Dizem que numa noite alguém viu um arrastão aproximar-se da praia envolto em nevoeiro. Alguns afirmam e juram que a silhueta do navio correspondia ao São Tiago. Um vulto escuro, de cabelos negros ao vento, correu pelo areal, mergulhou no mar e nadou vigorosamente até à embarcação. Pouco depois uma inesperada rajada de vento dissipou a neblina e ficou apenas o mar. o imenso mar salpicado de pontos prateados feitos de raios de lua. São coisas que se contam.

Fim

sexta-feira, 18 de março de 2022

FÁBULAS - 01

O POLVO BARMAN

Era um polvo feliz porque fazia aquilo que mais gostava. Era barman ou barpolvo, como queiram. Trabalhar no Algas-bar era estar nas suas sete quintas ou nas suas sete ondas como se usa lá no mar. Por vezes tinha que aturar velhos tubarões armados em carapaus, mas com um pouco de tolerância, e paciência tudo se fazia. Paciência era mesmo o seu forte. Só a perdeu uma vez em que atendeu um cardume de sardinhas universitárias que tinham urgência numa rodada de shot’s. Para surpresa de muitos, levantou a voz e disse: Tenham calma, não veem que só tenho oito braços!?

terça-feira, 8 de março de 2022

CONTOS - 001 - NÃO HÁ TEMPO PARA PISTACHOS

É fácil cair, até porque há sempre mais quem nos queira deitar a baixo do que quem nos ajude a levantar. Pior ainda é quando alguém está a bater no fundo julgando que está na coroa da lua.

O despertador emitiu vários sinais sonoros até que a mão indolente de Júlia o desligou com o polegar enquanto o indicador ligava o rádio. Ficou assim com os olhos semicerrados a ouvir um locutor que falava de pandemias e guerras com aquela aquele voz empolgada e feliz com que eles costumam dar más notícias. – coisas sem importância – pensou Júlia enquanto saía da cama espreguiçando-se. Olhou-se ao espelho. Apesar de ter completado recentemente os vinte e oito anos ainda mantinha um ar juvenil que lhe permitia mentir sobre a sua idade. Era linda, mas uma máscara de cansaço toldava aquela rara beleza. – Ossos do oficio – Pensou. A profissão que escolheu exigia muito dela, tanto a nível físico como psicológico.
Dirigiu-se à janela e levantou a persiana. Estava um dia radiante de Verão. A praia, ali a dois passos, era um mar de gente. Um miúdo fazia birra por não lhe comprarem um gelado. No passeio desenhava-se a figura caricata de uma velha que se ajeitava-se numa cadeira exibindo um cartaz onde se podia ler: “Alugam-se quartos”. Júlia encostou a testa à janela. A frescura do vidro era agradável. Famílias inteiras dirigiam-se à praia carregando uma parafernália de objetos: chapéus, toalhas, cadeiras, brinquedos, etc. Mesmo por baixo da sua janela, uma senhora gorda vendia amendoins, tremoços, pistachos e outros aperitivos. Adorava pistachos. - Daqui a pouco vou lá comprar uma sacada. Talvez compre também uma cerveja no quiosque. - Pensou ela sorrindo.
No areal, por entre toda aquela agitação, vislumbrou uma menina que brincava sozinha misturando areia com os seus sonhos de criança. Por momentos recordou a sua infância. Foi uma criança feliz rodeada de carinhos. Depois começou a crescer e uma sucessão de nefastos ventos levaram-lhe os sonhos e a vontade de viver. Primeiro a morte prematura do pai, depois o padrasto que lhe batia. Mais tarde a mãe partiu também para a eternidade. Ficou sem ninguém que a defendesse daquele ser imundo que era o companheiro de sua mãe. Só tinha uma solução: meteu algumas peças de roupa num saco, guardou o dinheiro que encontrou e pôs-se a caminho de dedo esticado pedindo boleia. O seu destino era ir para longe. É sempre esse o destino de quem foge. Assim ficou só no mundo em plena adolescência. Chegou a passar fome e a dormir na rua. A tudo resistiu até que uma amiga lhe deitou a mão. Agora estava bem. O apartamento virado para o mar e o BMW na garagem davam-lhe a felicidade com que muitos sonham. O toque do telemóvel interrompeu-lhe estes pensamentos que já lhe desenhavam uma lágrima fortuita no rosto. Numero privado como de costume. Atendeu. Uma voz de homem rouca e arrastada fez-lhe diversas perguntas. Ela foi respondendo cautelosamente e terminou a chamada indicando a sua morada. Já não tenho tempo para comprar pistachos.
Tomou um banho, secou-se, vestiu um conjunto de lingerie provocante e sentou-se esperando calmamente.
O primeiro cliente do dia estava para chegar.